{"id":23767,"date":"2016-06-05T09:43:53","date_gmt":"2016-06-05T12:43:53","guid":{"rendered":"https:\/\/portalv1.com.br\/?p=23767"},"modified":"2016-06-08T11:23:03","modified_gmt":"2016-06-08T14:23:03","slug":"violencia-contra-a-mulher-acontece-em-gestos-silenciosos-e-cotidianos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalv1.com.br\/violencia-contra-a-mulher-acontece-em-gestos-silenciosos-e-cotidianos\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia contra a mulher acontece em gestos silenciosos e cotidianos"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_23768\" aria-describedby=\"caption-attachment-23768\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/portalv1.com.br\/app\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/01-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-23768\" src=\"https:\/\/portalv1.com.br\/app\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/01-1.jpg\" alt=\"antrop\u00f3loga, valenciana P\u00e2mela Laurentina. \" width=\"640\" height=\"414\" srcset=\"https:\/\/portalv1.com.br\/app\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/01-1.jpg 640w, https:\/\/portalv1.com.br\/app\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/01-1-300x194.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-23768\" class=\"wp-caption-text\">antrop\u00f3loga, valenciana P\u00e2mela Laurentina.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Um homem \u00e9 encontrado desacordado em uma festa ap\u00f3s ingerir grande quantidade de bebida alco\u00f3lica. Ele \u00e9 colhido e, sem motivos aparentes, come\u00e7am a despi-lo e abusar de seu corpo. Desacordado, inconsciente, esse homem \u00e9 exposto, violentado e ainda \u00e9 alvo das famigeradas filmagens publicadas nas redes sociais. Essa \u00e9 uma cena de viol\u00eancia? Sem d\u00favidas. Dif\u00edcil imaginar que algo desse tipo ocorra? N\u00e3o se pensar que, ao inv\u00e9s de um homem, a prov\u00e1vel v\u00edtima da situa\u00e7\u00e3o seja uma mulher, alvo contumaz deste tipo de viol\u00eancia: o estupro.<\/p>\n<p>Situa\u00e7\u00e3o parecida como a imaginada no come\u00e7o desta reportagem viveram, nos \u00faltimos 15 dias, uma jovem no Rio de Janeiro e outra na cidade de Bom Jesus, no interior do Piau\u00ed. Separadas por milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, aproximadas pela dor compartilhada em se tornarem alvos do mesmo crime. Ambas foram v\u00edtimas de estupros coletivos enquanto estavam inconscientes.<\/p>\n<p>No entanto e, infelizmente, esses n\u00e3o foram casos isolados. Segundo estat\u00edstica recolhida pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP), uma mulher \u00e9 v\u00edtima de viol\u00eancia sexual a cada 11 minutos no Brasil. S\u00e3o mais de 120 mulheres violentadas todos os dias. Um crime t\u00e3o usual, t\u00e3o naturalizado, que se coloca para al\u00e9m da reflex\u00e3o de uma sociedade apenas violenta. \u00c9 onde a discuss\u00e3o sobre a \u2018cultura de estupro\u2019 toma corpo e urg\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cExiste sim essa cultura do estupro e n\u00f3s podemos associar isso a uma matriz brasileira de machismo. \u00c9 s\u00f3 observar o cotidiano. \u00c9 costumeiro estar dentro de casa, um primo seu passa e d\u00e1 um \u2018tapinha\u2019 na sua bunda, aparentemente aquilo \u00e9 banal, aparentemente aquilo \u00e9 permissivo, mas se formos analisar em uma \u00f3tica mais cr\u00edtica, nisso, j\u00e1 observamos o qu\u00e3o natural \u00e9, n\u00f3s mulheres, sermos abusadas\u201d, destaca a antrop\u00f3loga, P\u00e2mela Laurentina.<\/p>\n<p>S\u00e3o epis\u00f3dios de abusos que se repetem nas ruas, com cantadas constrangedoras e intimidadoras; em transporte p\u00fablico, com homens se aproveitando do pouco espa\u00e7o para abusarem de passageiras; em festas, com beijos \u2018roubados\u2019 e pux\u00f5es de cabelo; ao definir uma mulher pela roupa ou acess\u00f3rio que utilize, como \u2018puta\u2019 ou \u2018vadia\u2019. \u00c9 uma teia de situa\u00e7\u00f5es tidas como \u2018normais\u2019 constru\u00eddas sob a trajet\u00f3ria de cada mulher, que juntas eclodem no extremo da agress\u00e3o feminina.<\/p>\n<p>Situa\u00e7\u00f5es cotidianas, aceitas de forma silenciosas, que corroboram para que casos como os de estupros coletivos continuem a ser t\u00e3o comuns nesta sociedade. Uma cultura que perpassa pela objetifica\u00e7\u00e3o do corpo da mulher, a banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e a culpabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima, que tem colecionado trag\u00e9dias di\u00e1rias em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<h4><b>\u201cResidimos em um pa\u00eds machista e somos alvos de viol\u00eancias constantes&#8221;<\/b><\/h4>\n<p>Uma quest\u00e3o cultural, patriarcal e machista. \u00c9 partindo dessa an\u00e1lise, que a exist\u00eancia da cultura do estupro come\u00e7a a ser desenhada pela cientista social e mestre em antropologia, P\u00e2mela Laurentina. \u201c\u00c9 necess\u00e1rio que pensemos a matriz brasileira, que apesar dos quadros de mudan\u00e7as e perman\u00eancias, ainda somos um pa\u00eds que reside em uma cultura patriarcal, machista e, n\u00f3s, mulheres, somos alvos de viol\u00eancias constantes\u201d, avalia.<\/p>\n<p>S\u00e3o viol\u00eancias que passam pelo desprezo da vida, pelo corpo e pela sexualidade das mulheres. \u00c9 isso que significa, por exemplo, conceber uma sociedade que enfrenta casos de estupros coletivos de forma repetitiva onde, em uma l\u00f3gica reversa, quem se torna alvo de questionamentos primeiros \u00e9 a v\u00edtima: onde ela estava? Como ela estava? Com quem? Ela facilitou?<\/p>\n<p>Para a pesquisadora, a mulher \u00e9 usualmente apontada como culpada, e isto, nada mais \u00e9, que uma forma de machismo presente na sociedade. Em uma cultura de estupro, \u00e9 aceit\u00e1vel fomentar a exist\u00eancia de cren\u00e7as e normas de comportamento para as mulheres, usualmente as colocando como um ser humano que deve estar, constantemente, atrelado a uma lista de condutas morais. Exclui-se das mulheres o direito ao pr\u00f3prio corpo, desumanizando a ponto de serem vistas como objetos. Mulheres s\u00e3o divididas nas que &#8216;tem valor&#8217; e &#8216;sem valor&#8217;.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea come\u00e7a a observar os dispositivos de poder dentro da sociedade que est\u00e3o amalgamados dentro dessa perspectiva patriarcal e machista, por isso, essa necessidade de estarmos a todo tempo reiterando \u2018olha somos vitimas\u2019, \u2018voc\u00eas tem que ir atr\u00e1s do agressor\u2019, porque existe a naturaliza\u00e7\u00e3o da mulher numa perspectiva subalterna\u201d, destaca P\u00e2mela.<\/p>\n<p>\u201cAgora, come\u00e7a um movimento de cobran\u00e7a dos seus direitos e apontamento , a exemplo: \u2018n\u00e3o \u00e9 porque eu estou vestida assim, que eu mere\u00e7o ser estuprada\u2019. A grande quest\u00e3o \u00e9 saber at\u00e9 que ponto o Estado \u00e9 detentor ou n\u00e3o dos nossos direitos biopol\u00edticos: somos donas dos nossos pr\u00f3prios corpos? Se sim, porque somos agredidas a cada escolha de roupa?\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Para enfrentar o cen\u00e1rio, a pesquisadora destaca da necessidade de pensar e tratar as institui\u00e7\u00f5es de forma articuladas. \u201c\u00c9 imposs\u00edvel pensar educa\u00e7\u00e3o sem pensar em fam\u00edlia, \u00e9 imposs\u00edvel pensar educa\u00e7\u00e3o e fam\u00edlia e n\u00e3o pensar as outras institui\u00e7\u00f5es. Como \u00e9 que eu posso falar em diversidade de vida, de pot\u00eancia de vida, se eu tenho, atualmente, as c\u00e2maras de poder formadas, em sua maioria, por homens heteronormativos conservadores? N\u00e3o temos uma ideologia de g\u00eanero, n\u00f3s devemos discutir pot\u00eancias de vida. Estamos falando em diversidade, em variabilidade humana. Temos que nos posicionar politicamente, em ponto de resist\u00eancia, porque acho que, mais que nunca, o momento pol\u00edtico est\u00e1 sendo bem oportuno e necess\u00e1rio\u201d, finaliza.<\/p>\n<p><b>Quebrando o sil\u00eancio, jovens quebram barreiras e se organizam para debater sobre o tema<\/b><\/p>\n<p>Enquanto as primeiras palavras saem, ela deixa a vis\u00e3o baixa. Manter o contato visual \u00e9 miss\u00e3o dif\u00edcil, quando os gestos involunt\u00e1rios deixados pelo corpo querem esconder ou esquecer tudo o que aconteceu. Mas as lembran\u00e7as est\u00e3o l\u00e1 e saem em forma de frases intercaladas por longos suspiros e l\u00e1grimas. \u00c9 assim que Maria do C\u00e9u, 19 anos, consegue iniciar a contar que foi v\u00edtima de abuso sexual, quando tinha apenas sete anos.<\/p>\n<p>O que a jovem manteve em sil\u00eancio sepulcral por anos a fio, agora, \u00e9 um relato compartilhado com dezenas de outras jovens em uma proposta de ir contra qualquer corrente de sil\u00eancio. Falar sobre o estupro para combat\u00ea-lo, \u00e9 a proposta das jovens que se organizam no movimento <b>#JuntasSomosMaisFortes<\/b>.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 contei para minha m\u00e3e depois que o abusador, meu tio, faleceu. Ela sofreu muito. Para mim foi dif\u00edcil entrar na puberdade, me relacionar com homens. O pai da minha filha me ajudou bastante, porque eu me culpava. Mas eu ainda tenho muito medo pela minha filha. Eu sei que vai ser dif\u00edcil confiar em algu\u00e9m de novo\u201d, desabafa.<\/p>\n<p>Enquanto conta o que viveu, C\u00e9u n\u00e3o recebe apenas olhares de piedade, mas de reconhecimento. Outras meninas dali passaram por situa\u00e7\u00f5es semelhantes. Outras meninas foram abusadas e tantas outras vivem com o medo di\u00e1rio de tamb\u00e9m ser.<\/p>\n<p>\u201cA gente n\u00e3o tem medo de morrer, tem medo de ser estuprada, porque at\u00e9 a configura\u00e7\u00e3o do medo \u00e9 diferente da mulher para o homem. Temos uma cultura de que a garota n\u00e3o pode sair de short, ela tem que escolher as roupas que tem que usar, porque os homens ir\u00e3o assediar, e esse ass\u00e9dio \u00e9 uma coisa normal. \u00c9 a cultura de que voc\u00ea deve reprimir a sexualidade das garotas e incentivar os homens a serem livres, mas as mulheres n\u00e3o\u201d, desabafa a estudante de hist\u00f3ria, Lydia Meneses, uma das participantes do grupo.<\/p>\n<p>Juntas, as jovens querem agir contra os posicionamentos machistas impostos pela sociedade ao longo de suas vidas. A ideia inicial de formar um grupo para protestar contra os recentes casos de estupro coletivo, tem se ampliado para um local de forma\u00e7\u00e3o e cobran\u00e7a, onde as garotas ter\u00e3o acesso a debates de empoderamento pr\u00f3prios e tamb\u00e9m para outras mulheres.<\/p>\n<p>\u201cO caso da Beatriz foi s\u00f3 um fogo para a gente querer se mobilizar. Estamos vendo uma gera\u00e7\u00e3o de garotas que precisam acordar e entender que, filha, voc\u00ea pode namorar, vestir o que quiser, n\u00e3o deve se encaixar na conduta de uma sociedade machista. Entender que isso \u00e9 natural, questionar e falar dentro de casa, onde muitas meninas est\u00e3o reprimidas, \u00e9 essencial\u201d, finaliza Lydia.<\/p>\n<p><strong>Por: <\/strong>Glenda Uch\u00f4a &#8211; Jornal O DIA<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um homem \u00e9 encontrado desacordado em uma festa ap\u00f3s ingerir grande quantidade de bebida alco\u00f3lica. 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