Valença do Piauí, 21 de jan, 2026

Brasil perde Niède Guidon e desembargador Carlos Brandão reflete sobre seu legado

O Brasil recebeu, nesta quarta-feira (4), uma notícia que marca profundamente a comunidade científica e cultural: faleceu, aos 92 anos, a renomada arqueóloga Niède Guidon, referência mundial pelos estudos sobre a presença humana nas Américas e pela luta incansável pela preservação do patrimônio histórico e arqueológico brasileiro.

Figura central na defesa do Parque Nacional da Serra da Capivara, Niède Guidon deixa um legado de pesquisa, preservação e desenvolvimento sustentável para o sertão do Piauí. O Professor Doutor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Desembargador Federal do TRF1 e ministro indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Augusto Pires Brandão, relembrou com emoção, sua trajetória ao lado da arqueóloga.

“4 de junho. A partir de hoje, esta data deverá compor o calendário nacional. Neste dia, a Professora Doutora Niède Guidon (1933-2025) despede-se dos corredores da vida, para ocupar, com destaque, os salões da memória cívica e científica”, afirmou o desembargador.

A descoberta que mudou a história

Carlos Brandão destacou o marco histórico da pesquisa conduzida por Niède nos anos 1970, que colocou em xeque teorias consolidadas sobre a chegada do homem ao continente americano.

“Nos idos de 1973, escavando abrigos rochosos da Serra da Capivara, no Sertão do Piauí, a Professora Niède reuniu evidências – fogueiras datadas (em torno de 50.000 anos), artefatos líticos – que desafiaram o paradigma “Clovis” (13.000 anos, única migração, através da Beríngia), reposicionando o debate sobre a chegada humana ao continente americano”, explicou.

Uma amizade que gerou desenvolvimento sustentável

O encontro entre Niède e Carlos Brandão não ficou restrito ao campo da pesquisa. Juntos, protagonizaram uma luta pela preservação do patrimônio arqueológico ameaçado pela exploração mineral na região de São Raimundo Nonato.

“Uma de suas tantas lutas em defesa da preservação acabou por nos aproximar. Tornamo-nos admiradores. Pois bem. Havia na Região de São Raimundo um arranjo econômico que explorava rochas calcárias, produzindo cal. Ocorre que nos fornos dessa indústria, podiam-se queimar também reminiscências arqueológicas. O PH básico dessas rochas conservava esqueletos, artefatos, materiais orgânicos que guardavam os enigmas de civilizações, em sítios arqueológicos. Requerida a intervenção judicial, houve Liminar deferida na Justiça Federal, embargando a exploração mineral. Nessa época, na função de Juiz Diretor do Foro da Seção Judiciária do Piauí, acabei por iniciar visitas à Região, levando dezenas de instituições e outros juízes federais, abrindo diálogos para planejar e implantar novos arranjos produtivos para a Região, como a produção de mel, de cerâmica artesanal. Em poucos anos, esses produtos ganharam mercados e se tornaram fundamentais para a sustentabilidade social naquela Região do semiárido”, relembrou. Na foto o desembargador aparece com a arquiologa e o ex-deputado Paes Landim.

Conquistas para a preservação do patrimônio

O desembargador ainda destacou que, a partir desse trabalho conjunto, foram alcançadas importantes conquistas institucionais e ambientais.

“Nos horizontes abertos por essas relações interinstitucionais, desenvolveram-se miríades de ações em defesa da vida, do patrimônio natural, da memória nacional. Parques Nacionais, Áreas de Preservação Permanentes foram oficialmente declarados e reconhecidos. Chegamos a instalar juntos a Justiça Federal na Região, Vara Federal em São Raimundo Nonato, Posto Avançado da Justiça Federal em São João do Piauí”, lembrou.

Legado imortal

Ao longo da vida, Niède Guidon defendeu com firmeza a ciência e conservação ambiental.

“A Professora Niède venceu. Defendeu, de modo consciente e justificado, que ciência e conservação são indissociáveis. Defendeu a criação do Parque Nacional da Serra da Capivara (1979), reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Instituiu a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), da qual derivaram o Museu do Homem Americano e, décadas depois, o Museu da Natureza, dotando a região de infraestrutura museológica exemplar para pesquisa, educação patrimonial e turismo sustentável”, ressaltou.

O desembargador destacou que o trabalho de Niède não termina com sua partida. “Os ventos que agora lhe levam embora o corpo e lhe fazem brilhar a alma na eternidade levantam também na nossa consciência cívica as armas em defesa de seu legado. A partir de hoje uma legião de brasileiros ingressa nas fileiras de defesa para preservar o parque que ela salvou em diversas tormentas, para apoiar as instituições que edificou, para prosseguir nos diálogos críticos que a Professora Niède incentivava entre ciência, sociedade e natureza”, declarou.

Em tom de despedida, deixou suas condolências: “Neste momento de saudade e de reflexão, estendemos nossa solidariedade a familiares, amigos, colaboradores, aos habitantes de São Raimundo Nonato, lembrando-lhes, e a mim mesmo, que a memória dos justos permanece para sempre, “em memoria eterna” (Salmo 112,6).”

Carlos Brandão também é defensor da história e da cultura

Carlos Augusto, além de sua atuação no campo jurídico e acadêmico, também se destaca por ações de resgate da história, tradição e cultura no Piauí. Uma dessas iniciativas é a revitalização do Caminho da Fé, tradicional translado da imagem de Nossa Senhora da Conceição de Aroazes para os festejos de Nossa Senhora do Ó e Conceição em Valença, uma tradição religiosa que remonta a 1741 e que estava adormecida.

A celebração acontece sempre no sábado que antecede o Natal, que este ano será no dia 18 de dezembro. Essa tradição histórica, que contou com a presença do então Bispo Dom Manoel da Cruz, foi retomada graças ao empenho do desembargador e do condestável Dr. José Igreja, juntamente com a comunidade local.

Rota do Homem Americano

Outra iniciativa pioneira do desembargador foi a criação da Rota do Homem Americano, uma expedição que percorre caminhos históricos desde Oeiras até Pedro II, passando por cidades como Inhuma, Aroazes e Santa Cruz dos Milagres.

A rota tem como objetivo promover estudos e valorizar um dos mais enigmáticos fenômenos geológicos do Brasil, o Astroblema de São Miguel do Tapuio, além de reforçar a importância dos sítios arqueológicos do Piauí no contexto da história do povoamento das Américas. O trajeto hoje é objeto de estudo de universidades nacionais e internacionais, evidenciando sua relevância científica.

Uma vida dedicada à história

A trajetória de Niède Guidon, assim como a de Carlos Augusto, revela que preservar a memória é também construir futuro. A luta pela valorização da história, da cultura e da ciência continua viva, guiada pelo trabalho daqueles que acreditam que o conhecimento transforma realidades.

Texto do Desembargador sobre a vida e morte de Niède Guidon na íntegra:

4 de junho. A partir de hoje, esta data deverá compor o calendário nacional. Neste dia, a Professora Doutora Niède Guidon (1933-2025) despede-se dos corredores da vida, para ocupar, com destaque, os salões da memória cívica e científica.

Mulher, destemida, atravessou, ainda na juventude da vida, os mares d’águas e da imaginação, fazendo sentinelas em bibliotecas e laboratórios da Europa, preparando o seu exército para a cruzada que empreenderia nas Américas, abrindo, a partir de sofisticados modelos teóricos, novos caminhos que alcançariam os largos campos da verdade, de cuja beleza florescem as explicações mais genuínas sobre a vida humana na Terra.

Nos idos de 1973, escavando abrigos rochosos da Serra da Capivara, no Sertão do Piauí, a Professora Niède reuniu evidências – fogueiras datadas (em torno de 50.000 anos), artefatos líticos – que desafiaram o paradigma “Clovis” (13.000 anos, única migração, através da Beríngia), reposicionando o debate sobre a chegada humana ao continente americano.

O rigor metodológico de suas pesquisas, aferidas em laboratórios de datação na França e nos EUA, descerrou uma nova cronologia para a história das Américas. A ousadia das proposições abriu diversas frentes de batalha, incorporando dimensões interinstitucionais e interdisciplinares em suas estratégias. O Estado maior de seu exército hoje está abrigado em centro de excelência arqueológica, com sede em São Raimundo Nonato, onde ingressam pesquisadores de diversas universidades estrangeiras.

Uma de suas tantas lutas em defesa da preservação acabou por nos aproximar. Tornamo-nos admiradores. Pois bem. Havia na Região de São Raimundo um arranjo econômico que explorava rochas calcárias, produzindo cal. Ocorre que nos fornos dessa indústria, podiam-se queimar também reminiscências arqueológicas. O PH básico dessas rochas conservava esqueletos, artefatos, materiais orgânicos que guardavam os enigmas de civilizações, em sítios arqueológicos. Requerida a intervenção judicial, houve Liminar deferida na Justiça Federal, embargando a exploração mineral. Nessa época, na função de Juiz Diretor do Foro da Seção Judiciária do Piauí, acabei por iniciar visitas à Região, levando dezenas de instituições e outros juízes federais, abrindo diálogos para planejar e implantar novos arranjos produtivos para a Região, como a produção de mel, de cerâmica artesanal. Em poucos anos, esses produtos ganharam mercados e se tornaram fundamentais para a sustentabilidade social naquela Região do semiárido.

Nesses diálogos, nasceu uma admiração recíproca, que depois agregou o Deputado Federal Paes Landim ao meu coração. Nos horizontes abertos por essas relações interinstitucionais, desenvolveram-se miríades de ações em defesa da vida, do patrimônio natural, da memória nacional. Parques Nacionais, Áreas de Preservação Permanentes foram oficialmente declarados e reconhecidos. Chegamos a instalar juntos a Justiça Federal na Região, Vara Federal em São Raimundo Nonato, Posto Avançado da Justiça Federal em São João do Piauí.

A Professora Niède ganhou o coração de todos nós. Formou gerações. Participou intensamente de processos que transformaram as nossas vidas. Levantou as cortinas da burocracia para que a sociedade estivesse em cena. Transformou a dureza da Caatinga em grande ativo econômico e cultural. Merece todas as homenagens em sua despedida. Vibrante, com um olhar acadêmico para além de doutrinas, lutou incansavelmente para tornar a Região referência internacional, transformando a vida das pessoas, criando horizontes inimagináveis.

A Professora Niède venceu. Defendeu, de modo consciente e justificado, que ciência e conservação são indissociáveis.  Defendeu a criação do Parque Nacional da Serra da Capivara (1979), reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Instituiu a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), da qual derivaram o Museu do Homem Americano e, décadas depois, o Museu da Natureza, dotando a região de infraestrutura museológica exemplar para pesquisa, educação patrimonial e turismo sustentável.

Para além da arqueologia, articulou projetos sustentáveis de geração de renda, capacitando as comunidades, na produção de cerâmica artesanal que ganhou projeção internacional, na implantação de escolas rurais, na produção de mel, na defesa de políticas públicas de proteção ao bioma da caatinga. Integrou conservação ambiental, valorização cultural e promoção de dignidade às comunidades, dando vida prática a um modelo de desenvolvimento hoje estudado em fóruns internacionais de gestão de sítios patrimoniais.

O legado de Niède Guidon compõe agora a imaginação, as poesias inscritas nos paredões de arenito há milênios, hoje ressignificados e protegidos por sua ousadia acadêmica e sua militância cívica.

Os ventos que agora lhe levam embora o corpo e lhe fazem brilhar a alma na eternidade levantam também na nossa consciência cívica as armas em defesa de seu legado. A partir de hoje uma legião de brasileiros ingressa nas fileiras de defesa para preservar o parque que ela salvou em diversas tormentas, para apoiar as instituições que edificou, para prosseguir nos diálogos críticos que a Professora Niède incentivava entre ciência, sociedade e natureza.

Neste momento de saudade e de reflexão, estendemos nossa solidariedade a familiares, amigos, colaboradores,  aos habitantes de São Raimundo Nonato, lembrando-lhes, e a mim mesmo, que a memória dos justos permanece para sempre, “em memoria eterna” (Salmo 112,6).

Viva a História, viva a Caatinga, viva o Piauí, viva o Nordeste. Viva! Vivas a esse imenso Brasil, que deve ser de todos nós.

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