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Pega na mentira

28/02/2012

Em 1981 o cantor e compositor carioca Erasmo Carlos gravou a canção Pega Na Mentira que se tornou grande sucesso nacional por retratar afirmações contrastadoras da realidade natural que só com milagres poderia modificar tal estado de coisas, como, por exemplo, diz a letra com refinado humor: “Zico tá no Vasco, com Pelé”, “Minas importou do Rio, a maré”, “O amor vai se acabar”, entre outras hilariedades.

Transmudando aguda ironia musical para a atualidade governamental piauiense, sabe-se, entretanto, que o ensino da rede estadual é deficiente. A Secretaria da Educação não fez ainda o seu dever de casa para promover bom nível educacional. Ao governo compete planejar, agir e melhorar o aprendizado do alunado. Por não fazer o trivial, o Piauí é o segundo colocado no ranking do atraso escolar do Brasil e que está à frente apenas do Estado do Pará (Jornal Diário do Povo de 15 de julho de 2011). No ensino acadêmico, a UESPI por deficiência estrutural e funcionamento paralisou longamente as suas atividades em 2011 no que gerou o Movimento SOS UESPI.

O Jornal O Globo informou: “No Piauí, professores de química lecionam física e matemática”. E ainda noticiou: “No Piauí, educadores lecionam em varias áreas e alunos recebem notas, mesmo sem ter aulas. Parte dos 400 estudantes da Unidade Escolar Governador Alberto Tavares Silva, no Conjunto Morada Nova, em Teresina, teve notas de matemática atribuídas por avaliação pessoal e comportamento” (edição de 29 de dezembro de 2011).

No recente estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), intitulado “Presença do Estado no Brasil: Federação, suas Unidades e Municipalidades”, afirma que a evasão escolar do ensino médio no Piauí é uma das maiores do País. Apurou que, no Piauí, 60,1% dos jovens de15 a17 anos deixam a escola antes de completar esse nível de ensino (Jornal Diário do Povo de 30 de dezembro de 2011).

É notório que para a administração pública proporcionar boa educação para todos deve atacar os crônicos problemas salariais dos professores, suprir a rede de bons educadores, como também instituir plano de carreira e promover bom gerenciamento dos servidores. É sabido que pouco vem sendo realizado pelos gestores educacionais estaduais nessa área, o que assim cai por terra qualquer arroubo para provar o contrário, pois não existe de fato educação qualificada ministrada aos piauienses.

O governo apresentou dados contraditórios do setor na mensagem deste ano que o governador discorreu na Assembléia Legislativa quando disse que assumiu o governo com 19 escolas estaduais em tempo integral e que em um ano saltou para 181 escolas. O senador João Vicente Claudino (PTB), que percorre os municípios piauienses e é sabedor da falta de bibliotecas nas escolas, do seu funcionamento com infraestrutura precária e da necessidade de qualificação de professores, foi ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), em Brasília, e constatou que só existem 40 escolas em tempo integral no Piauí.

O Secretário Átila Lira perdeu as estribeiras ao saber que o senador João Vicente confrontou os números no Ministério da Educação. Uma semana depois, a Secretaria da Educação divulgou lista com apenas 109 escolas em tempo integral, com diferença de 72 escolas. Visitando algumas delas, constatou-se que estão em péssimo estado de funcionamento. Pegou mal para o governo expor dados da educação comparáveis aos dos estados desenvolvidos do Brasil, quando, na verdade, nunca saiu da lanterna.

O governador ainda informou que em 2012 vão ser investidos R$ 111 milhões na UESPI, quando nos últimos anos a média foi R$ 54 milhões. Por não registrar projetos no SICONV, a UESPI perdeu quase R$ 10 milhões do governo federal em 2011. Para piorar, Átila Lira saiu da discussão sobre a educação estadual, onde deveria apresentar a comprovação dos seus dados, e desviou a conversa para a seara política com o intuito de sair do foco. Adotar escolas? Como se referiu o Secretário da Educação, não. No Brasil, adoção é aceitação legal como filho. No caso das escolas, Átila Lira comanda escolas públicas com a marca de resultados ruins e como dono de escola particular, a Faculdade Santo Agostinho, cobra caro dos seus desafortunados estudantes piauienses. Como na música acima, é zombeteira também essa forma de administrar!

 

 

Por: Deusval Lacerda de Moraes

 

Pós-Graduado em Direito

 

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2 Comentários

  1. Prof. Daniel em 29/02/2012 às 11:06

    Verdade! Posso citar um bom exemplo, que é o caso de Novo Oriente do Piauí.
    Trabalhei em uma instituição de ensino onde queriam que adulterasse as notas dos alunos, estão muito mais preocupados com o quantitativo, que aparecem mascarados para dizer que realizaram uma boa gestão.
    Digo isso e não me escondo, porque eles sabem que é verdade. Fui demitido por conta de pessoas despreparadas que ainda não entenderam o real sentido da educação.
    Se alguém por ventura vier sentir-se ofendido por tais declarações, só lamento!

  2. Franklin Mendes em 03/03/2012 às 21:06

    Alguns anos atrás, em junho de 2003, uma crônica escrita para a coluna Ponto de Vista da revista Veja provocou grande polêmica nos meios educacionais e cadêmicos que se ocupam, em especial, da alfabetização. O cronista, professor universitário, articulista em jornais e revistas e formado mestre e doutor em economia no exterior, assim começava seu texto “Lições de futebol”: Quem quer ganhar seu futebol procura o Brasil, porque ganhamos cinco vezes. Mas nós nem se quer sabemos como se alfabetiza nos países que ganhamos a copa do mundo da educação.
    Nessa epígrafe, o autor já deixava entrever suas posições a respeito do Brasil (país qualificado unicamente no futebol, com baixíssima qualidade de educação em relação aos países centrais, colocando em último lugar no Pisa/2002 que é um programa internacional de avaliação de alunos).

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